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Na primeira aula da cadeira “Estratégias de Comunicação Digital” do Mestrado em Gestão Estratégica das Relações Públicas – razão da existência deste blog, diga-se de passagem –, o professor Nuno pediu que todo e qualquer contato fosse feito através do Facebook. Segundo ele, o e-mail estava a “morrer”. Há dois meses que continuo refletindo sobre tal afirmação, principalmente considerando os seguintes fatos: faço parte da geração que acompanhou a computação e a Internet da época dos trabalhos cujos títulos eram feitos com WordArt, que jogava Campo Minado e Pinball, que conectava-se através do telefone (a famigerada rede discada), que entrava em salas de bate-papo e lia e-mails. De toda esta rotina “tecnológica” do final da década de 90 e início dos anos 2000, o único procedimento que vem se repetindo até então é a checagem da minha caixa de entrada. Todos os outros atos foram substituídos por novos formatos mais modernos e “multi-interativos” (com uma série de funcionalidades).

As redes sociais são a expressão mais latente deste processo, e o Facebook – esse gigante tanto em dimensão online, quanto social e também econômica – já é capaz de substituir o “velho” e-mail na função contactar as pessoas, enviar mensagens, anexos, fazer login em outros sites e muito mais. Mas, então, porque continuo com o hábito de acessá-lo diariamente e ainda utilizá-lo com frequência? Pois bem, por mais que sejamos todos online (assunto de outro post), e isto implicar na constante evolução dos nossos meios e práticas, algumas ferramentas trazem consigo conceitos mais consolidados e que consideramos mais funcionais devido à simplicidade com que se constituem. Basta experimentar buscar um anexo enviado num grupo de mensagens privadas no Facebook para instantaneamente o sujeito perceber como a tarefa torna-se mais complexa do que a pesquisa no próprio e-mail. Outro ponto que pode ser destacado é a aura de correio eletrônico, de simulacro das nossas caixas de correspondências, que lhe conferem um sentido mais formal.

Talvez o e-mail seja uma dos poucos instrumentos que se mantém praticamente nos mesmos moldes de outrora, principalmente no que diz respeito ao uso privado, dispensando o conceito participativo. A ideia de Web 2.0, concepção de Tim O’Reilly em 2004 para designar a internet no modelo que conhecemos hoje em dia, surge em consonância com esse fenômeno, em que pouco a pouco a maioria das ferramentas já se desenvolviam no sentido de ultrapassar a esfera privada em que estávamos habituados a viver. As nossas relações com procedimentos e sistemas simples do mundo offline, quando transpostos para o online, passaram por uma adaptação que a rede mundial de computados demandava. Como cita o caderno Among The Audience” do jornal The Economist:

Espreitar o diário de uma irmã mais velha normalmente leva a uma escaramuça. Os blogs, por outro lado, são sociais por natureza, sejam eles abertos ao público como um todo ou apenas a um pequeno grupo seleto.

A partir de então, o indivíduo já não mais fazia parte apenas do seu grupo social, até o momento, bastante atrelado ao espaço físico em que se inseria. Esta nova conexão, para além do seu sentido denotativo, exigia um “enlace ou vínculo entre pessoas ou entidades” que ultrapassasse as barreiras e colocasse em vista o real sentido da globalização na sua forma mais ampla e grandiosa possível.

Os blogs surgiram como uma expressão particular do usuário, com uma proposta de autoconstrução de conteúdo constante. Hoje, podemos dizer que ultrapassaram o seu termo inicial para se tornarem o cerne de praticamente toda forma de intervenção na era da Internet. Vivemos numa versão beta perpétua – versão de um produto (geralmente software) que ainda se encontra em fase de desenvolvimento e testes e são disponibilizados para que os usuários possam testar e eventualmente, reportar bugs para os desenvolvedores. Tanto nós, seres humanos, quanto os produtos e serviços que consumimos (e também criamos) estão constantemente passando por processos de mudanças, sendo adaptados conforme o uso. As modificações recorrentes nas dinâmicas sociais demandam uma alteração frequente de plataformas, canais e métodos.

Closeup of business woman hand typing on laptop keyboard

Processos que eram estáticos e unidirecionais passaram a funcionar em múltiplas direções, e a construção de conteúdo e informação jornalística é uma expressão significante desta nova dinâmica chamada jornalismo social, cujos princípios continuam a mover pessoas e corporações. O site Blasting News, em operação pelo mundo desde 2013, é um importante exemplo contemporâneo. Esta “revista” online funciona da seguinte forma: colaboradores enviam suas matérias e reportagens e uma curadoria de editores remotos e de máquinas com tecnologia de entendimento de conteúdo filtram o que deve ou não ser publicado. O autor do material selecionado ainda é remunerado devido à quantidade de visualizações que o seu conteúdo recebe – um pagamento que advém da publicidade apresentada nas páginas.

O público tem poder, pessoas comuns podem operar, mas há um preço a se pagar e a convergência, que possibilita a convivência mútua dos meios tradicionais e digitais, pode ser a única forma de manter o sistema em andamento. A produção de conteúdo alternativa, feita de forma amadora pelo consumidor significa uma alteração radical na dinâmica profissional do processo jornalístico. O cidadão não tem acesso a técnicas e práticas específicas necessárias – jamais saberão conceitos como lead ou critérios de noticiabilidade. Mas, podem atuar como jornalistas e muitas corporações dispensam profissionais devido à otimização dos recursos financeiros que este modelo oferece. Por isto, a qualidade do produto final é questionável, pois falta a aplicação de técnicas e práticas básicas exigíveis, que atribuem valor-notícia e que garantem credibilidade. Os veículos de comunicação de massa complementam esse sistema por ainda serem responsáveis por legitimar uma notícia, de representarem a versão oficial e confiável. No mundo instantâneo em que vivemos, onde as informações são veiculadas em redes sociais e replicadas automaticamente de forma indistinta para o mundo, a verificação com fontes credíveis – princípio jornalístico básico – é esquecida pelos produtores amadores (e toda gente sabe disto), enquanto nas redações tradicionais é ideal primário da concepção de uma reportagem.

O autor Philip Meyer diz em seu livro The Vanishing Newspaper que o último leitor irá reciclar o último jornal em 2040 – ou seja, daqui há 24 anos. De fato, acredito muito nesta insustentabilidade do meio impresso, sobretudo quando há uma série de fatores que corroboram, como a questão da diminuição da rentabilidade em publicidade, dos altos custos operacionais, sem contar o próprio argumento ambiental e a evolução tecnológica. Mas entre a dimensão tátil do jornalismo e o seu compromisso social existe uma função que se mantém, porque nada mais é do que a institucionalização, passível de verificação e ordenamento, da mais antiga necessidade humana: o saber.

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kindle

A transformação nas plataformas de comunicação é uma realidade intransponível para todas as pessoas. Conviver com o digital é imperativo e independe de faixa etária, classe social e até mesmo vontade.

A maioria das “invenções” formuladas a partir da internet é uma representação “abstrata” de ferramentas e processos da nossa realidade. Os sites, por exemplo, em português (de Portugal) são sítios, uma expressão imaginária de um local. Já os e-mails foram concebidos para serem nossos endereços, enquanto os blogs surgiram no formato de diário e os fotologs foram por muito tempo verdadeiros álbuns de recordações fotográficas.

Esta semana voltando para casa no Metropolitano de Lisboa vi uma senhora de uns 60 e alguns anos a correr seus olhos pelo Kindle para ler, enquanto uma jovem com uns 20 e poucos segurava um exemplar de um livro físico. Esse fato demonstra claramente o potencial das novas tecnologias ganharem espaço na nossa vida, mas, sobretudo também revela que há um limite para a hegemonia digital.

Nos anos 60, ao cunhar a expressão “o meio é mensagem” no seu livro “Os meios de comunicação como extensões do homem”, o sociólogo canadense Marshall McLuhan já sinalizava como a experiência de comunicação é modificada através do suporte mediador do processo. Hoje, mesmo com a “evolução” constante dos meios, que muitas vezes implica no enfraquecimento de velhos modelos (como é o caso do jornal impresso), ainda não é possível visualizar uma completa substituição. Afinal, determinadas sensações parecem ser apenas obtidas através de certas práticas específicas, que envolvem sentidos que a experiência digital não consegue proporcionar.

Um Kindle, por mais prático que possa ser, jamais poderá oferecer a sensação do toque ao passar as páginas, o cheiro do papel recém-impresso. Sentidos que evocam outros que aparentemente não são usados, mas que estão indiretamente atrelados à experiência de leitura.

Outro exemplo desse fenômeno de resistência e, algumas vezes, até retorno a práticas tradicionais é o resgate do vinil na atualidade. Após a ascensão e decadência do CD, e a supremacia do formato MP3, o velho LP (long-play) volta à cena revitalizando o significado do álbum musical como obra fonográfica (sentido perdido com a digitalização da música a partir de algumas décadas atrás).

Kindle, livro, jornal. iPod, MP3, vinil. Conceitos do presente (quiçá do futuro) e também do passado. Objetos tecnológicos e também históricos. Entretanto, todos podem conviver no mesmo tempo e espaço. A tecnologia é mandatória, fato. Mas jamais será capaz de “canibalizar” todos os aspectos e preferências da nossa vida.

Texto: Markets Are Conversation; The Cluetrain Manifesto (1999)

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Quando pensar em Internet, pense numa mesa para dois. Esta é a ideia de abertura do capítulo Markets Are Conversation do livro The Cluetrain Manifesto – The End of Business as Usual. Contudo, a “mesa” de interação proporcionada pelo ambiente online é infinita e precisa ter “cadeira” disponível para todos poderem sentar. E mais: cada componente precisa se sentir um convidado especial.

Pensar em mercado, desde o seu princípio, é pensar em conversa. É lembrar de como o processo de compra e venda dependia de estabelecer um contato entre as partes através do diálogo. Com a inserção da Internet na dinâmica mercadológica, deve-se ter em mente que vários elementos estão envolvidos neste processo, mas especialmente a empresa e o cliente (que deve ser visto no singular, ainda que a “mesa” seja para  todos).

Desta forma, considerando a ideia inicial de mercado, desenvolvida de forma personalizada e pautada no entendimento do consumidor, faz-se necessário rever diversas práticas contemporâneas de marketing e vendas.

A Era Industrial, que teve início no século XVIII, revolucionou o modo de estabelecer negócios de tal forma que até hoje estamos inseridos na lógica do consumo de massa. Entretanto, apesar de tantas similaridades, os públicos ainda são distintos e cada pessoa possui uma necessidade própria que deseja ter satisfeita.

A plataforma online surge como uma forma de permitir uma comunicação de duas pontas, onde ambos os lados são protagonistas da informação.  O público anseia pelo sentimento de valorização de quem ele é, do que deseja, do que pensa, do que faz. E a Internet é o palco onde cada pessoa se expõe e espera pelo aplauso dos outros, vindos em forma de likes, de hearts, de shares, de comments. A mensagem de cada usuário é emitida com o objetivo de ser vista e compreendida, e é exatamente esta relação que se espera também com cada marca que ele consome.

A quantidade de conexões que o ambiente online é capaz de proporcionar ultrapassa a barreira física e torna-se imensurável. A voz de apenas uma pessoa pode ecoar somente entre os seus contatos, mas também pode adquirir proporções para além do território geográfico onde está inserida.

Assim, a comunicação, inicialmente ponta a ponta, ganha múltiplos contornos, onde se somam as várias vozes dos consumidores e espectadores que são tão (ou até mais) valorizados quanto o posicionamento de uma marca.

O grande desafio do século XXI, principalmente com a inserção das novas tecnologias da informação, é utilizar todas as ferramentas que a Internet é capaz de oferecer a fim de estabelecer novamente o diálogo com os consumidores, mesmo não sendo possível abandonar o princípio da produção de massa.

Para isto, a fórmula para as corporações se posicionarem provavelmente seja a mesma que o autor utilizou para apresentar as falhas da empresa que o contratava para desenvolver uma estratégia de mercado para o lançamento de um novo produto: dizer a verdade, e, consequentemente, dar uma nova esperança.